Como calcular a margem real do delivery (com todas as taxas e comissões)
Seu restaurante fatura R$30k/mês no iFood — mas depois de taxa, embalagem, motoboy e imposto, quanto sobra? A maioria não faz esse cálculo e se surpreende.
Márcia fatura R$ 30.000 por mês só no iFood. Abre o aplicativo toda manhã, vê os pedidos chegando e pensa: "Tá ótimo. O delivery tá bombando."
Mas quando a Tamy fez o cálculo real — decompondo taxa, embalagem, imposto e CMV — o número que apareceu foi diferente do que ela esperava.
De R$ 30.000 de faturamento no iFood, sobrava R$ 9.480 antes de pagar um único ingrediente, um único funcionário ou um centavo de aluguel.
O delivery "bombando" estava gerando menos da metade do que parecia.
A matemática que a maioria não faz
O iFood não esconde as taxas. Elas estão no contrato. O problema é que o dono vê o faturamento bruto — os R$ 30.000 — e não visualiza quanto sai antes do dinheiro chegar na conta dele.
Vamos fazer essa decomposição do jeito que o dono precisa ver:
Cenário: marmitaria que fatura R$ 30.000/mês no iFood (Plano Entrega)
| Item | Valor | % do faturamento |
|---|---|---|
| Faturamento bruto (iFood) | R$ 30.000 | 100% |
| (-) Comissão iFood (27% — Plano Entrega) | -R$ 8.100 | 27% |
| (-) Taxa de pagamento online (3,2%) | -R$ 960 | 3,2% |
| (-) Embalagem (R$ 2,50 × 480 pedidos) | -R$ 1.200 | 4% |
| (-) Imposto (Simples Nacional ~6%) | -R$ 1.800 | 6% |
| = O que sobra para cobrir CMV, folha, aluguel e lucro | R$ 17.940 | 59,8% |
| (-) CMV dos ingredientes (35%) | -R$ 10.500 | 35% |
| = Margem para cobrir custos fixos e lucro | R$ 7.440 | 24,8% |
Dos R$ 30.000 de faturamento, depois de comissão, embalagem, imposto e ingredientes, sobram R$ 7.440 para cobrir mão de obra, aluguel, energia, gás — e ainda gerar lucro.
Se a folha de funcionários alocada ao delivery é R$ 5.000 e os custos fixos proporcionais chegam a R$ 4.000, esse canal está no prejuízo de R$ 1.560/mês — sem que Márcia soubesse.
Os planos do iFood — taxas reais em 2025
O iFood tem 3 planos principais, com estruturas de custo bem diferentes:
| Plano | Comissão | Entrega | Quem paga o motoboy | Custo total aproximado |
|---|---|---|---|---|
| Básico | 12% | Restaurante paga motoboy próprio ou parceiro | Restaurante | 12% + custo do motoboy (R$ 8–15/entrega) |
| Entregue | 23% | iFood providencia entregador | iFood | 23% + 3,2% taxa pagamento = ~26,2% |
| Entrega Fácil | 27% | iFood providencia entregador (maior cobertura) | iFood | 27% + 3,2% = ~30,2% |
Fonte: tabela de comissões iFood vigente em 2025. Valores podem variar por região e volume de pedidos.
No Plano Básico, a taxa de comissão é menor (12%), mas o restaurante arca com o custo do motoboy. Em São Paulo, um motoboy de aplicativo cobra R$ 8–15 por entrega dependendo da distância. Para 480 pedidos/mês, isso é R$ 3.840–7.200 só em frete — o que pode ser mais caro do que a diferença de comissão entre o Básico e o Entregue.
A única forma de saber qual plano compensa para o seu volume e perfil de pedidos é fazer a conta com os seus números reais.
A fórmula de margem real do delivery — pedido por pedido
Para entender o delivery de verdade, não olhe só o mês inteiro. Calcule por pedido:
Margem real por pedido =
Preço de venda
- Comissão iFood (% × preço)
- Taxa de pagamento (3,2% × preço)
- Embalagem
- Custo do ingrediente (CMV do prato)
- Imposto proporcional (% × preço)
÷ Preço de venda × 100 = Margem %
Exemplo: marmita fitness a R$ 28 no iFood (Plano Entregue)
| Componente | Valor |
|---|---|
| Preço de venda | R$ 28,00 |
| (-) Comissão iFood 23% | -R$ 6,44 |
| (-) Taxa de pagamento 3,2% | -R$ 0,90 |
| (-) Embalagem | -R$ 2,50 |
| (-) CMV do prato (ingredientes) | -R$ 10,00 |
| (-) Imposto 6% | -R$ 1,68 |
| = Margem por pedido | R$ 6,48 |
| Margem % | 23,1% |
R$ 6,48 de margem por marmita de R$ 28 no delivery. Desse R$ 6,48 ainda precisa sair a proporção de mão de obra, aluguel e energia por pedido.
Se os custos fixos proporcionais por pedido chegam a R$ 5,50, a margem líquida real é de R$ 0,98 por marmita — 3,5%.
Para a análise completa de qual marmita dá mais lucro no delivery versus no balcão, veja: Margem da marmitaria: qual marmita dá lucro de verdade.
Quando o delivery compensa: o volume mínimo
Delivery não é sempre ruim. É um canal que tem estrutura de custo diferente — e que compensa quando o volume é suficiente para diluir os custos fixos e quando os pratos vendidos têm margem adequada para o canal.
A conta básica de volume mínimo:
Volume mínimo de pedidos =
Custos fixos mensais alocados ao delivery
÷ Margem por pedido (em R$)
Exemplo: se os custos fixos alocados ao delivery (mão de obra proporcional, aluguel do espaço de preparo, energia) somam R$ 6.000/mês e a margem média por pedido é R$ 6,48:
Volume mínimo = R$ 6.000 ÷ R$ 6,48 = 926 pedidos/mês
Abaixo de 926 pedidos, o delivery não cobre os custos. Acima disso, começa a gerar lucro. Se o restaurante faz 480 pedidos/mês no iFood com essas margens, o canal está no prejuízo — e o dono não sabe porque soma tudo com o salão.
Como negociar com o iFood (dicas concretas)
O iFood negocia. A maioria dos donos não sabe disso porque nunca pediu. Algumas alavancas reais:
1. Volume comprometido: se você se comprometer com um volume mínimo de pedidos por mês, o iFood pode oferecer desconto de 1 a 3 pontos percentuais na comissão. Funciona principalmente para restaurantes com mais de 300 pedidos/mês.
2. Exclusividade temporária: durante promoções sazonais (Dia dos Pais, Dia das Mães, Natal), o iFood oferece visibilidade maior em troca de exclusividade temporária ou participação em campanhas. Pode valer a pena negociar a participação em troca de melhor posicionamento no app.
3. Posicionamento pago: ao invés de aceitar a comissão maior pelo "Entrega Fácil", avalie o custo do posicionamento pago (impulsionamento) em um plano de comissão menor. Em alguns casos, o custo do anúncio é menor que a diferença de comissão.
4. Plano Básico + motoboy parceiro: para restaurantes com volume acima de 600 pedidos/mês em área de alta demanda, o Plano Básico com motoboy de aplicativo (iFood Parceiro) pode ser mais barato que o Entregue. Calcule com os valores reais da sua região.
Delivery próprio: quando migrar
Delivery próprio — com motoboy contratado ou terceirizado via frete — faz sentido quando:
- Volume acima de 200 pedidos/mês em raio de até 5km
- Ticket médio acima de R$ 40 (justifica o custo do frete)
- Clientela que prefere canal direto (WhatsApp, telefone)
O custo de 1 motoboy CLT em São Paulo é de R$ 2.800 a R$ 3.500/mês (salário + encargos). Para esse custo valer, precisa fazer pelo menos 200 entregas/mês — o que dá R$ 14–17,50 por entrega versus R$ 8–15 de aplicativo.
Para comparar de forma justa: no iFood Plano Entregue (26,2% de custo total), em um pedido de R$ 40, o custo é R$ 10,48. No delivery próprio com motoboy CLT fazendo 200 entregas/mês, o custo por entrega é R$ 16 — mas sem a comissão de 27% sendo descontada. Em pedidos acima de R$ 60, o delivery próprio começa a compensar.
Delivery e DRE: como separar na prática
No DRE do restaurante, o delivery precisa aparecer como canal separado — não misturado com o salão. A estrutura é:
| Linha | Salão | iFood | Delivery próprio | Total |
|---|---|---|---|---|
| Faturamento | R$ 50.000 | R$ 30.000 | R$ 10.000 | R$ 90.000 |
| (-) Comissão plataforma | — | -R$ 9.600 | — | -R$ 9.600 |
| (-) Embalagem | -R$ 500 | -R$ 1.500 | -R$ 500 | -R$ 2.500 |
| (-) CMV (35%) | -R$ 17.500 | -R$ 10.500 | -R$ 3.500 | -R$ 31.500 |
| = Margem bruta por canal | R$ 32.000 | R$ 8.400 | R$ 6.000 | R$ 46.400 |
| Margem bruta % | 64% | 28% | 60% | 51,6% |
Com essa visão, fica claro: o salão tem margem bruta de 64%, o iFood tem 28%, o delivery próprio tem 60%. As decisões de onde investir em crescimento ficam óbvias.
Para entender o DRE completo do restaurante, veja: Como montar o DRE do restaurante — guia com exemplo prático. Para a análise específica de iFood: iFood: lucro ou prejuízo? Como calcular a margem real do delivery.
Como a Tamy calcula a margem do delivery automaticamente
A Tamy conecta diretamente com os dados de venda do iFood e do Rappi — e já desconta comissão, taxa de pagamento e embalagem no cálculo da margem. O dono não precisa fazer a conta no papel.
Todo dia, a Tamy mostra a margem por canal. Quando o iFood cresce em faturamento mas a margem do canal cai, a Tamy avisa: "O iFood representa 33% do faturamento mas só 18% da margem bruta — considere revisar o preço nos sabores mais pedidos ou negociar o plano."
Não é relatório. É ação.
"Eu achava que o iFood era meu melhor canal porque era o maior em faturamento. Quando a Tamy separou a margem, descobri que o delivery próprio pelo WhatsApp tinha margem 2,5x maior. Reduzi promoção no iFood e aumentei o foco no WhatsApp. Em 60 dias, o lucro líquido subiu R$ 3.200 sem mudar o faturamento." — Márcia O., Marmitaria, São Paulo
Perguntas frequentes
Como saber se o iFood está dando lucro ou prejuízo?
Calcule a margem real por pedido: preço de venda menos comissão iFood, menos taxa de pagamento, menos embalagem, menos CMV dos ingredientes, menos imposto proporcional. Se o resultado for menor que o custo fixo alocado por pedido, o canal está no prejuízo.
Qual plano do iFood é mais barato?
Depende do seu volume de pedidos e da sua operação de entrega. O Plano Básico tem menor comissão (12%) mas você paga o motoboy. O Plano Entregue (23%) inclui entregador do iFood. Para volumes abaixo de 300 pedidos/mês, o Plano Entregue geralmente é mais previsível. Acima de 300, vale calcular com os custos reais de motoboy da sua região.
Devo cobrar preço diferente no delivery?
Sim — especialmente se o custo do canal (comissão + embalagem) é significativo. Cobrar R$ 2 a R$ 5 a mais no delivery do que no salão é prática comum e aceita pelos clientes. O argumento é simples: o preço do salão inclui o ambiente e o atendimento; o preço do delivery inclui a logística.
Delivery via WhatsApp tem taxa?
Não tem comissão de plataforma, mas tem custo de motoboy (próprio ou de aplicativo) e embalagem. A vantagem é a margem maior — sem os 23%–27% de comissão do iFood. A desvantagem é que exige mais organização operacional (receber pedido, confirmar pagamento, despachar) e não tem o algoritmo de descoberta do iFood.
Fontes: iFood (dados de comissão vigentes em 2025), ABRASEL — Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (abrasel.com.br), SEBRAE (sebrae.com.br), IFB — Instituto Food Service Brasil (foodservicebrasil.com.br).
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