Ficha técnica de receita: o modelo prático para restaurante pequeno (sem complicar)
Sem ficha técnica você precifica no achismo e perde entre 5–12% de margem por prato. Montar é mais simples do que parece — e muda o negócio.
Carlos nunca soube o custo real do prato principal do Boteco do Carlão. A costelinha na brasa era o queridinhos do cardápio — a casa cheia, o cliente feliz, o pedido voltando toda sexta. Ele cobrava R$ 72. Achava que a margem era uns 35%, talvez 40%.
Quando montou a ficha técnica pela primeira vez — cada ingrediente, cada grama, cada desperdício — descobriu que a margem real era 18%.
Estava vendendo o prato mais popular do bar no prejuízo relativo. Todo mês que passava com a casa cheia de costelinha era um mês em que ele trabalhava mais do que precisava e sobrava menos do que merecia.
O que é ficha técnica e por que ela importa
Ficha técnica é a lista completa de tudo que entra num prato: ingrediente, quantidade bruta, quantidade após preparo, custo por unidade e custo total. É o DNA financeiro de cada item do seu cardápio.
Sem ela, você precifica no cheiro. "Esse prato eu acho que gasta uns R$ 20 de matéria-prima." Esse "acho" pode estar certo ou pode estar errado em R$ 8. Multiplicado por 300 pedidos no mês, são R$ 2.400 que você pensava que tinham e não tinha.
O SEBRAE aponta que 48% dos negócios de alimentação fecham por problemas financeiros — e a falta de controle do custo por prato está entre as causas mais frequentes. Não porque o dono não trabalha. Porque o dono não sabe exatamente o quanto cada prato custa de verdade.
A ficha técnica resolve isso. E fazer uma é mais simples do que parece.
Os componentes de uma ficha técnica
Uma ficha técnica bem feita tem seis campos para cada ingrediente. Veja o que cada um significa:
Ingrediente: O nome do item (patinho, alho, manteiga, sal, pimenta etc.)
Quantidade bruta: Quanto você pega da geladeira ou do estoque antes de qualquer preparo. Se você usa 300g de patinho para fazer a porção, essa é a quantidade bruta.
Fator de correção: Quanto sobra do ingrediente depois do pré-preparo. O patinho perde peso quando você apara a gordura. A cebola perde a casca. O abacaxi perde a casca e o miolo. O fator de correção é um número entre 0 e 1 que representa quanto do ingrediente bruto vira ingrediente pronto para usar.
Exemplo: se você compra 300g de patinho e, depois de aparar, fica com 255g, o fator de correção é 255 ÷ 300 = 0,85.
Quantidade líquida: É a quantidade bruta multiplicada pelo fator de correção. Esse é o ingrediente que de fato entra no prato.
Custo por unidade: O preço que você pagou dividido pela unidade de compra. Se o patinho custou R$ 28/kg, o custo por grama é R$ 0,028.
Custo total do ingrediente: Quantidade líquida × custo por unidade. Esse é quanto aquele ingrediente representa no prato.
Some o custo de todos os ingredientes e você tem o custo direto do prato — o CMV daquele item específico.
Fator de cocção: o que muda quando o prato vai ao fogo
Além do fator de correção (perda no pré-preparo), existe o fator de cocção — a perda de peso ou volume durante o cozimento.
A carne que perde água no forno. O arroz que absorve água e aumenta. A batata que murcha quando frita. Esses são fatores de cocção.
Para a maioria dos pratos de bar e restaurante pequeno, o fator de cocção é mais importante na proteína principal e em legumes cozidos. Para pratos simples, você pode ignorá-lo num primeiro momento e ajustar depois que tiver os primeiros números.
Se quiser ser preciso: pese o ingrediente antes de cozinhar e depois de cozinhar. Divida o peso depois pelo peso antes. Esse é o fator de cocção.
Exemplo: filé de frango pesava 180g cru. Depois de grelhado, pesa 138g. Fator de cocção = 138 ÷ 180 = 0,77.
Modelo de ficha técnica: como preencher
Use este modelo para cada prato do seu cardápio. Pode ser numa planilha, num caderno organizado ou na Tamy — o que importa é ter o número.
| Ingrediente | Qtd. Bruta | Fator de Correção | Qtd. Líquida | Custo/unidade | Custo total |
|---|---|---|---|---|---|
| Patinho bovino | 320g | 0,88 | 282g | R$ 0,028/g | R$ 7,90 |
| Alho | 15g | 0,90 | 13,5g | R$ 0,042/g | R$ 0,57 |
| Limão | 1 unid. | 0,75 | 0,75 unid. | R$ 0,80/unid. | R$ 0,60 |
| Azeite | 20ml | 1,00 | 20ml | R$ 0,052/ml | R$ 1,04 |
| Sal, pimenta, alecrim | — | — | — | — | R$ 0,35 |
| Arroz preparado (porção) | 180g | — | 180g | R$ 0,018/g | R$ 3,24 |
| Farofa (porção) | 80g | — | 80g | R$ 0,022/g | R$ 1,76 |
| Total | R$ 15,46 |
Preço de venda: R$ 58,00 Margem bruta: (58 – 15,46) ÷ 58 = 73,3% CMV do prato: 15,46 ÷ 58 = 26,7%
Para um corte bovino grelhado, CMV de 26,7% está dentro do ideal (benchmark: 28–35% para carnes em restaurante casual).
Exemplo completo: picanha na brasa
Vamos montar a ficha técnica de uma picanha na brasa — prato típico de bar premium.
| Ingrediente | Qtd. Bruta | Fator Correção | Qtd. Líquida | Custo/g ou unid. | Custo |
|---|---|---|---|---|---|
| Picanha bovina | 400g | 0,82 | 328g | R$ 0,085/g | R$ 27,88 |
| Sal grosso | 30g | 1,00 | 30g | R$ 0,004/g | R$ 0,12 |
| Manteiga | 20g | 1,00 | 20g | R$ 0,038/g | R$ 0,76 |
| Alho | 10g | 0,90 | 9g | R$ 0,042/g | R$ 0,38 |
| Vinagrete (porção) | 120g | — | — | — | R$ 1,20 |
| Arroz e farofa | — | — | — | — | R$ 4,50 |
| Embalagem + gás | — | — | — | — | R$ 1,80 |
| Custo total | R$ 36,64 |
Se você cobra R$ 89 pela picanha na brasa:
- CMV = R$ 36,64 ÷ R$ 89 = 41,2%
- Margem bruta = 58,8%
Benchmark para picanha em bar premium: CMV entre 35–42% é aceitável dado o ticket alto. Mas se o fornecedor subir 15% no preço da picanha, o CMV vai para 47% e a margem despenca para 53%. Sem a ficha técnica, você não percebe essa mudança até que já perdeu R$ 3–4 por prato.
Como usar a ficha técnica no cardápio
Depois de montar as fichas de todos os pratos, você tem três informações valiosas:
1. Quais pratos têm CMV fora do controle: qualquer prato acima de 40% de CMV precisa de revisão de preço ou reformulação de ingredientes. Veja o guia de CMV para restaurante.
2. Quais pratos você pode empurrar com segurança: os de CMV mais baixo e boa margem são os que a equipe de salão deve oferecer como sugestão. O garçom que sugere o prato certo não está fazendo favor — está protegendo a margem do negócio.
3. Quando revisar o preço: toda vez que o fornecedor mudar o preço de um ingrediente principal, a ficha técnica mostra o impacto direto no CMV. Você decide se aumenta o preço, ajusta a receita ou absorve a perda — mas decide com dados, não no achismo.
A ficha técnica é a base do controle de CMV do restaurante. Sem ela, o CMV mensal é uma estimativa. Com ela, é um número real que você pode agir em cima.
4 erros comuns ao montar a ficha técnica
Ignorar o fator de correção. Se você anota que usa 300g de filé mas na prática compra 350g porque 50g vai fora no pré-preparo, o custo real é calculado sobre os 350g — não os 300g. Ignorar isso subestima o custo em 15%.
Não incluir insumos de baixo custo. Sal, pimenta, óleo, papel toalha, embalagem, guardanapo. Cada um parece pequeno, mas somados podem representar R$ 1,50 a R$ 2,50 por prato — o suficiente para tirar 3–4 pontos percentuais da margem.
Montar a ficha uma vez e nunca atualizar. O custo do fornecedor muda. O fornecedor muda. A receita muda com o tempo porque o cozinheiro adapta. A ficha técnica precisa ser revisada pelo menos a cada dois meses, ou toda vez que um insumo principal mudar de preço.
Usar preço de tabela em vez de preço real pago. O preço que você paga pelo fornecedor com desconto, pagamento à vista ou negociação pode ser diferente do preço de tabela. Use o preço que você realmente paga para que a ficha reflita o custo real.
Como a Tamy organiza as fichas técnicas
A Tamy registra o custo de cada insumo conforme você lança as compras. Quando o preço do fornecedor sobe, ela atualiza automaticamente o impacto no CMV de cada prato que usa aquele ingrediente. O dono não precisa refazer planilha — a Tamy avisa quando um prato que estava em 28% de CMV passou para 36%.
Com os custos organizados, a Tamy também mostra o CMV global do negócio todo mês — não só o CMV estimado, mas o real, cruzado com o que saiu do estoque.
"Eu achava que minha margem no prato principal era 35%. Era 18%. Sem a ficha técnica, eu não teria descoberto nunca. Corrigi o preço e a margem do bar subiu 11 pontos em dois meses." — Carlos, Boteco do Carlão, Curitiba
Perguntas frequentes
O que é ficha técnica de restaurante?
Ficha técnica é o registro completo de todos os ingredientes de um prato: nome, quantidade bruta, fator de correção, quantidade líquida, custo unitário e custo total. É o documento que mostra o custo real de cada item do cardápio — e é a base para uma precificação correta.
Qual a diferença entre fator de correção e fator de cocção?
Fator de correção é a perda no pré-preparo (casca, gordura, aparas). Fator de cocção é a perda durante o cozimento (água que evapora na carne, perda de volume no refogado). Para precisão máxima, aplique os dois. Para começar, foque no fator de correção — já elimina a maioria das distorções.
Com que frequência devo atualizar a ficha técnica?
Sempre que o preço de um insumo principal mudar, ou pelo menos a cada dois meses. O custo do fornecedor muda com frequência — sem atualização, a ficha técnica vira um dado histórico inútil para decisões atuais.
Preciso de software para fazer ficha técnica?
Não. Uma planilha simples resolve para começar. O importante é ter os dados — ingrediente, quantidade, fator de correção e custo. Depois de montar a estrutura, qualquer ferramenta serve. O que não pode é ficar só na cabeça.
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Fontes: SEBRAE — Estudos e Pesquisas Food Service 2024; ABRASEL — Pesquisa do Setor de Food Service 2025